11/10/03 ELA
Um projeto em trâmite no Congresso Nacional está deixando a comunidade gay com as plumas atrás da orelha: um homossexual pode, por livre e espontânea vontade, virar heterossexual? Será que um gay ou uma lésbica, depois de um “tratamento”, pode ficar “normal”, tornando-se ex-gay ou ex-lésbica? Pois o deputado Edino Fonseca, do Prona, o partido do Enéias, acredita que sim e diz que existe uma legião de ex-gays e ex-lésbicas que, depois de um processo de reversão sexual, casaram-se e até tiveram filhos. Seria o caso de Carlos Henrique Bertilac, casado há 13 anos com Ruth, pai de uma menina de 11 e hoje diretor do G.A. (Grupo de Amigos), que “recupera” gays. E tudo isso, segundo ele, com uma vida sexual satisfatória.
Para o deputado evangélico, a reversão sexual é uma questão de dinheiro. Bastaria que o governo financiasse esses centros de orientação para gays que desejassem mudar de condição sexual e o número de homossexuais no país iria diminuir.
— Minha pretensão é socorrer os que não estão conformados com a vida homossexual. Aquelas pessoas que redescobrem que não são homo, mas sim hetero, e entram em crise psicológica — afirma o deputado. — Acho que isso é responsabilidade do Estado. Conheço várias pessoas que deixaram de ser homossexuais e se tornaram hetero e que são discriminadas quando dizem que são ex-gays. Eu não acho que a pessoa nasça homossexual, ela adquire a homossexualidade pela influência do meio. E toda a mídia estimula a entrada nesse universo e nada para a saída.
Para gays, lésbicas e psicanalistas, porém, a idéia de Edino beira o ridículo e causa muita indignação. Para os gays, a proposta de reverter os homossexuais em hetero seria coisa de gente enrustida. Para psicanalistas como Eduardo Losicer, a proposta lembra a eugenia dos nazistas e dos fascistas e estas técnicas de tratamento que consideram o homossexualismo coisa do demônio só podem ser diabólicas. A cantora Ângela RoRo, mais radical, diz que é preciso “passar um rodo” neste pastor:
— Um decreto que estipula que os homossexuais são pessoas que precisam de ajuda médica é uma sentença de morte social. Se for um homossexual portador de HIV, então, não terá imunidade para resistir a tanta imbecilidade.
O presidente do grupo Arco-Íris, Cláudio Nascimento, suspeita das intenções do deputado:
— Esses grupos e esse projeto criam um subterfúgio para dar status de legalidade para a perseguição de homossexuais, hoje proibida por lei. O Rio já tem duas leis que punem a discriminação. Por que eles não falam em apoiar heterossexual que queira ser homossexual? Esse projeto que quer dinheiro para “reverter” homossexuais vai contra a lei 3.046, que pune a discriminação.
‘Foi um inferno tentar virar hetero’
Se para esse grupo de evangélicos a homossexualidade pode ser “revertida”, para a Igreja Católica, segundo o arcebispo dom Eugenio de Araujo Sales, os homossexuais devem ser orientados para o celibato: “Possuir a tendência ao homossexualismo não significa algo ofensivo a Deus e aos homens. O pecado está no ato livremente praticado. Diz o Catecismo da Igreja Católica, número 2.359: ‘As pessoas homossexuais são chamadas à castidade’.” (Trecho do artigo do arcebispo publicado no GLOBO em 19 de julho deste ano).
A turma do deputado do Prona acha que há pessoas dispostas “a deixar de ser gay”. Como se autoproclama Carlos Henrique Bertilac da Silva, casado há 14 anos, pai de uma menina de 11 e um dos coordenadores do G.A., que existe há 15 anos no Rio com filiais.
— A maioria é de homens de 25 a 35 anos que quer mudar — diz Bertilac.
Ele conta que começou a ter relacionamentos homossexuais com 9 anos. Jovem, tentou namorar mulheres mas não tinha prazer. Depois, continuou com relacionamentos homossexuais, chegando a viver com um rapaz. E teve recaídas antes de optar pela abstinência até casar com Ruth. E diz que há 21 anos não é mais gay.
— Fui iniciado no sexo com homem e vivi isso anos. Meu corpo estava viciado em contato com o mesmo sexo. Com mulher o prazer é diferente. Não sinto saudade do outro tipo de sexo.
Ruth nunca conseguiu ver o marido como homossexual.
— Muitos me perguntavam por que, com tantos varões, escolhi logo um com a questão H (homossexual). Eu acredito na transformação de homossexuais.
O presidente do Moses (grupo que se propõe a regenerar homossexuais), João Luiz Santolim, acredita que é possível deixar de ser gay com terapia evangélica. E conta que, depois de praticar o homossexualismo durante anos, o poder de Deus conseguiu alterar a sua homossexualidade:
— Dos 7 aos 11 anos fui vítima de abuso sexual por pais de meus colegas. Nesse tempo vivi um conflito enorme e acabei acreditando no que me foi ensinado.
Já para a hoje lésbica assumida Cláudia Machado, diretora-executiva do Coletivo de Lésbicas do Rio de Janeiro, ex-integrante do grupo Moses, a reversão é impossível. Ela diz que foi um inferno para tentar ser heterossexual, sem resultados. Depois de sentir vontade de morrer resolveu assumir que era lésbica:
Aos 15 anos Cláudia namorou um rapaz e ficou noiva.
— Achei que estava liberta, que não era mais lésbica. De tanto reprimir aquele sentimento, deixei adormecer o meu tesão pelas meninas. O meu sentimento ficou em coma. Mas também eu não sentia nada pelos rapazes. Forcei a barra pela família.
Foi então que Cláudia começou a dar seu testemunho de ex-lésbica e conheceu o hoje diretor do Moses, João Luiz Santolim.
— Ele me dava livros para me condicionar sexualmente.
Depois de toda essa literatura, Cláudia sentiu um efeito pelo avesso: um “tesão furioso” por mulheres, até se apaixonou por uma das ex-lésbicas do Moses, mas ainda tentava ser hetero. Forçou um namoro com um homem, mas não deu de novo.
— Meu tesão estava aumentando e eu dando testemunho de ex-lésbica. Eles me disseram que eu estava tomada pelo demônio, queriam me exorcizar. Eu tinha 29 anos e resolvi entrar de cabeça no Coletivo de Lésbicas.
Marcelo Cerqueira, presidente do Grupo Gay da Bahia, está revoltado com o deputado.
— Esse projeto é agressivo.
Os psicanalistas também são contra o projeto de Edino Fonseca. Jeziel Bueno afirma que “ninguém pode se arvorar de consertar o outro”. Eduardo Losicer acredita que essa missão “de limpar o mundo dos gays, consertando-os, é tipicamente nazista”. E Marco Aurélio Jorge acha que “não há reversão para a homossexualidade”.
O Conselho Nacional de Psicologia desaconselha profissionais de tentarem ajudar seus pacientes que desejem se lançar numa cruzada de reversão sexual. O psicanalista José Renato Avzaradel concorda. Ele acha praticamente impossível, a reversão sexual, mas a psicanálise pode ajudar a atenuar o sofrimento do homossexual que tem conflito com sua sexualidade:
— A psicanálise pode ajudá-lo não a mudar de orientação sexual, mas a lidar melhor com esse conflito para tentar aliviar seu sofrimento e nada mais.